Transcentrando conhecimento...

O termo Transgênero abarca a grande diversidade das identidades de gênero dos seres humanos, onde essa diversidade humana é documentada desde a origem da história humana. Em decorrência da lógica eurocêntrica e colonizadora que permeou os processos históricos e sociopolíticos dos últimos séculos, principalmente em países colonizados por metrópoles europeias, foi-se formando um pensamento de que o sexo e o gênero humano são binários, além que pela estrutura patriarcal a figura do homem seria central nessa lógica. 

Dado a esse pensamento binário, foram se formando papéis de gênero onde a figura do ser mulher estaria relacionada a gostar e se relacionar afetivamente e sexualmente com homens e vice-versa. Entretanto, a identificação dos diferentes comportamentos de um grupo é uma análise fundamental para a compreensão do lugar ocupado pela categoria gênero na escala social é o valor socialmente dado a cada um dos grupos, a partir daí, foi possível sua desconstrução e desnaturalização, dado que os papéis de gênero não são absolutos. 

Segundo o pensamento de Simone Beauvoir, a existência precede a essência, o humano é uma subjetividade existencial e indeterminada, portanto, o humano deve ser inventado a cada dia, pois o humano é seu próprio projeto dado que a característica tipicamente humana é o nada. As pessoas nascem sem objetivo, devendo criar uma existência autêntica para si, escolhendo assim o que querem se tornar. 

Ao aplicar essa ideia à noção de mulher, ela demandou a separação do ente biológico (a forma corporal com a qual nascem as fêmeas) da feminilidade (construção social). Por conseguinte, Beauvoir desmonta o determinismo biológico que permeava a noção do ser mulher e do pensamento binário eurocêntrico, separando sexo e gênero, onde consequentemente não há uma essência de “mulher”, já que qualquer construção é aberta a mudança, destruição, interpretação e reestruturação, onde a partir disso, existem várias ou nenhuma forma de ser mulher, ou seja, ninguém nasce mulher, torna-se mulher. 

A partir daí, compreendemos como se dá os papeis de gênero e as construções sociais que perpassam as noções de gênero, além de como a mera existência de orientações sexuais e identidades de gêneros que vão contra essas noções, demonstra que elas não são naturais e não passam de meras ferramentas de controle dos corpos e do desejo, como a heteronormatividade e a cisnormatividade compulsória. 

Em determinado momento da vida de uma pessoa trans quando ela transiciona e não apresenta uma heterossexualidade no seu desejo, ela é confrontada com as noções que discutimos anteriormente, gerando momentos de tensão e desconforto. Se faz necessário ocupar os espaços sobre sexualidade e desejo para garantir o rompimento dessas noções antiquadas sobre sexualidade e desejo, dado que orientação sexual não define identidade de gênero e vice-versa. 

Portanto, relacionar-se ou gostar de mulher independe de sua identidade de gênero, se você e cis ou trans, nossa subjetividade não deve ser determinada por padrões compulsórios de sexo e gênero de uma sociedade disciplinar, mas de acordo como nos entendemos e compreendemos o que somos.  Seja como Nimona, um ser que não quer se encaixar em uma sociedade que a força ser o que não é, mas que anseia ser quem é. 

Agradecimentos: 

Agradeço inicialmente agradeço a minha amiga, Lucy Souza Gomes, que pelo seu histórico de divulgação e produção na área de estudos de gênero, me ajudou a montar o escopo deste texto. 

Finalmente, agradeço a todes os pesquisadores, acadêmicos, cientistas e jornalistas que permitam a existência e produção desse texto. 

Referências: 

  • FOUCAULT, M. Vigiar e punir: Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2011. 
  • FOUCAULT, M. História da sexualidade. Rio De Janeiro (Rj): Graal, 1980. 
  • ‌SIMONE DE BEAUVOIR. O segundo sexo. Rio De Janeiro (Rj): Nova Fronteira, 1980. 
  •  Laura J. Shepherd and Laura Sjoberg, “Trans-Bodies in/of War(s): Cisprivilege and Contemporary Security Strategy,” in Feminist Review. 
  • STEVENSON, N. Nimona. New York, NY: Harperteen, 2015. lher? 

Relacionado

CHAMADA URGENTE À MOBILIZAÇÃO!

O Coletivo Transcentrado convoca todas as pessoas trans...

Leave a Comment