Transcentrando conhecimento...

Autor(a): Alice Luna Ferreira Silva, PCBR/UJC e Frente de Defesa Pelo Craist.

Lucy Gomes de Souza, Rede Kunhã Asé.

O termo LGBTQIAP+ é um acrônimo abrangente que abarca a maior parte da diversidade não-binária, biológica, social e sexual dos seres humanos. Essa diversidade é documentada desde a origem dos registros históricos humanos (por exemplo, na antiga Mesopotâmia, onde os sacerdotes e sacerdotisas da deusa Inanna, ou Ishtar, eram bissexuais e transgêneros), mas a cultura oral pré-histórica (anterior aos escritos do Homo sapiens) na América, Oceania, Europa, Ásia e África, por exemplo, pode ser rastreada até pelo menos 13.000 anos atrás [1].Apesar dessas origens antigas, essa comunidade continua lutando por seu direito de existir e por suas necessidades básicas serem proibidas por lei em inúmeros países atualmente [2,3].

Todas as lutas pelos Direitos Humanos devem ser interseccionais em suas origens, não havendo sentido lógico em separar essa luta comunitária como uma luta individual. No entanto, pretendemos explicar os ataques recentes as pessoas trans no mundo (sendo trans, segundo a OMS, a incongruência de gênero e aquilo que uma pessoa apresenta sobre o gênero que lhe designaram no nascimento). Como exemplo, temos o Brasil [4,5], Reino Unido [6] e EUA [7,8]. Esses ataques têm como alvo pessoas trans, onde se disseminam notícias falsas para gerar ódio contra elas, além de modificações nas leis que invalidam a identificação de gênero e os problemas médicos associados.

O espaço limitado de visibilidade causa um aumento da conscientização e percepção sobre a reificação de pessoas transgênero e consequente desumanização no mundo, onde percebesse um processo de desumanização com ações políticas, sociais, culturais e econômicas contra a população trans, em especial no que tange a saúde.

Segundo a lógica do biopoder de Foucault [9], buscasse usar esta população vulnerável como bode expiatório para projetos de poder que busquem criar uma sociedade disciplinar com corpos dóceis, normatizando esses corpos para facilitar o controle deles, dado que, a partir daí, não passariam de objetos. Para garantir tal projeto de controle, utiliza-se de narrativas onde está população estaria mutilando seus corpos e se tornando pacientes altamente dependentes de cuidados médicos por toda vida, além de que crianças e adolescentes seriam incapazes de compreender o seu gênero [10,11,12]. Portanto, isso demonstra um processo de reificação, um tipo de alienação derivada do modo de produção/consumo do capitalismo, onde pessoas trans deixam de ser vistas como indivíduos para somente objetos, coisas vulneráveis que são capazes de se machucar, ou até mesmo, machucar outras pessoas em nome de seu “pensamento trans”.

Como resultado dessa desumanização, essa população e empurrada para empregos informais como a prostituição, tanto virtual quanto física, e na saúde, para tratamentos de lógica transmedicalista, onde se ignora a variedade e possibilidades de gênero e que se busca por uma simplificação dessa complexidade em favor de um binarismo de gênero, que patologiza e controla os corpos que divergem desse binário, tratando por fim essas pessoas apenas como objetos de estudo.

O processo de desumanização resulta em uma “suicidacão” dessas pessoas trans, ou seja, segundo Durkheim [13], ocorreria um processo de anomia social, dado que várias pessoas trans passariam por um processo de suicídio anômico e/ou fatalista, dado que sem perspectivas de um futuro em que seu ser e respeitado, essas pessoas se matariam, gerando um processo de aniquilação da população trans de forma brutal, como consequência de ambos.

A lógica por trás da transfobia perpassa a ideia um discurso prático, como “pessoas trans são uma ameaça, estão se infiltrando nos nossos espaços, são um perigo para juventude, silenciam qualquer pessoa que tente conversar”, onde esse discurso em sua totalidade é justificado pelo ato de que escutar pessoas trans seria uma submissão a “perigosa lógica trans”. Esse pensamento permite criar uma bolha discursiva, que quando essas pessoas são questionadas, elas alegam estar sobre ataque, ou seja, estas pessoas estão sobre um “fantasma”, um conceito de Darin Tenev [14], que seria uma maneira de interpretar de forma irreal o mundo, projetando seus sentimentos nele e, além de ser uma ferramenta para mascarar a dissonância cognitiva diante da ansiedade e medo presente nas falhas individuais e estruturais da sociedade atual, funciona como uma profecia autor realizável que pessoas trans que podem causar fatos desagradáveis, onde quando ocorre, se confirma esse pensamento pregresso de que tudo daria errado, gerando uma hipótese/ teoria infalssiavél.

Por conseguinte, a consequência natural do capitalismo, somado ao uso de fantasmas, à extrema-direita e seu flerte com o fascismo, resulta na utilização das populações trans como símbolo de histeria coletiva, exemplo de domínio sobre os corpos e mentes e a criação de um inimigo comum da idealização hipócrita dos “bons costumes e moralidade” fascistas, buscam uma forma de criticar o capitalismo sem nomear o capitalismo como um problema, apenas captando o descontentamento de algumas pessoas para garantir a manutenção no sistema que essas pessoas odeiam, para no fim mantê-lo de uma forma mais violenta e resistente [15].

O inimigo do mundo não é a população trans; estamos aqui há milênios como uma comunidade pacífica na qual era/é consideradas divinas, portadora de boa sorte e socialmente importante em algumas culturas tradicionais. Além disso, as pessoas trans representam algo em torno de 1% da população mundial. As pessoas trans nunca impuseram seus costumes (culturais, sociais e políticos), nem tentaram “converter” pessoas; apenas lutamos contra o processo descrito, visando conquistar nossos direitos de existir. Lutar em conjunto com as populações trans e a comunidade LGBTQIAP+ é o mesmo que lutar contra a extrema-direita e sua forma fascista de dominação.

Como observação final, é importante deixar claro que o fascismo é uma consequência natural do capitalismo, como forma de manter a dominância e a restrição do sonho coletivo de que não há saída para o capitalismo. No entanto, existem várias alternativas, como as observadas em culturas tradicionais ou em ideias socioeconômicas cientificamente elaboradas, como anarquismo, socialismo e comunismo. É impossível não mencionar os avanços sociais em países de orientação socialista como Cuba [16], China [17] e Vietnã [18.19]. Esses são exemplos de que um modo de vida melhor, que valorize a diversidade humana e o mundo natural, é possível. A luta nunca terminará, mas a flor continuará brotando nas ruas do mundo; não temos nada a perder além de nossas amarras.

Agradecimentos:

Agradeço inicialmente agradeço a minha companheira, Lucy Souza Gomes, pela ideia, engajamento e de se colocar a frente para produção deste texto. Além disso, considero e afirmo que ela também foi autora desta teste, auxiliando de várias formas em sua produção, principalmente ao nível intelectual.

Posteriormente, agradeço a população trans brasileira, principalmente as pessoas que conheci no meu processo de formação intelectual, como os membros da Frente de Defesa pelo CRAIST.

Finalmente, agradeço a todes os pesquisadores, acadêmicos, cientistas e jornalistas que permitiram a existência e produção desse texto, especialmente os materiais produzidos pela Abigail Thorn. Que me auxiliaram a montar a base deste texto.

Referências:

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